Jerry Adriany ganha cidadania aos 58 anos

Ex-morador de rua de Queimados agora tem uma vida nova com nome e sobrenome

Dona Darci e Jerry Adriany com a certidão de nascimento em mãos

QUEIMADOS - Jerry Adriany. Bem diferente do cantor que teve seus momentos de fama e sucesso nas décadas de 60, 70 e 80, o ex-morador de rua e xará do artista teve uma história triste parecida como a de muitos imigrantes nordestinos que fugiam da fome, da seca, da falta de emprego e com o sonho de uma vida melhor. Nascido no interior da Paraíba (PB), Jerry chegou ao Rio de janeiro adolescente após a morte dos pais. Sem apoio dos irmãos mais velhos e demais familiares, só restou tentar a sorte grande saindo da sua terra natal indo para a cidade maravilhosa. Assim que chegou viu que a capital fluminense não oferecia tudo que ele esperava e as dificuldades logo apareceram.

Sem formação, emprego, dinheiro ou qualquer documento de identificação, o jovem “invisível” teve que se virar como pôde para sobreviver nas ruas do Centro do Rio. Um biscate aqui e outro ali como ajudante de obras até mesmo catar papelão, garrafas pets e latinhas para ter o que comer. Essa foi sua rotina por muitos anos nas ruas. Após conhecer sua atual companheira também nas ruas, Darci Moreira, de 58 anos, Jerry veio para o município de Queimados. Ambos moraram debaixo de um viaduto na entrada da cidade, até que em 2010, o casal foi acolhido por assistentes socais do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), da Secretaria Municipal de Assistência Social. O Creas oferece serviços especializados a pessoas sob vulnerabilidade social ou que sofrem com a violação de seus direitos básicos. Assistentes sociais fazem buscas desses casos para cumprir medidas socioeducativas e de proteção básica.

A diretora municipal de Proteção Especial, Maria das Dores (Dorinha), fala sobre a importância do atendimento e acolhimentos da Prefeitura. “Temos orgulho de ter colaborado com a mudança na vida do Jerry e da Darci. Quando soubemos do caso deles fizemos o acolhimento. Acredito que estamos mudando a vida das pessoas trazendo mais dignidade a elas. Garantimos o direito do Jerry de ser um cidadão com acesso aos serviços públicos essenciais. Antes era como se ele não existisse. O sucesso do nosso trabalho é a liberdade e a autonomia que o prefeito Max Lemos e a secretária de Assistência Social, Ana Paula Rosalino, dão a equipe. É por isso que nos empenhamos todos os dias para fazer ainda mais e melhor”, disse a diretora municipal de Proteção Especial, Maria das Dores (Dorinha), que também é assistente social. 

Agentes do Creas que acolheram o casal, Andrea de Andrade (a esq) e Onofre Alves Cordeiro (a Dir)
Em novembro de 2013, Jerry participou do Mutirão de Erradicação do Subregistro Civil e Documentação Civil, promovido pela Prefeitura de Queimados, em parceria com o Governo do Estado. Realizada na Escola Municipal Oscar Weischenk, a ação viabilizou a entrada no processo para emissão de certidões de nascimento com apoio do Cartório de Registro Civil de Queimados e a Defensoria Pública. Até o momento foram emitidas seis certidões de nascimento.

“Quando se vive na rua você se torna invisível”

Para Jerry Adriany, agora registrado, ter um nome de verdade faz com que não seja invisível perante a sociedade e o poder público. “Quando se vive na rua você se torna invisível. Ninguém te olha, ninguém fala com você, é como se você não existisse. Agora, sinto que minha vida é mais digna. Tenho um nome de verdade, posso ter uma identidade e sonho em trabalhar de carteira assinada”, desabafou emocionado, com a certidão em mãos no 3º ofício de registro civil.

Com a renda de R$ 70 do programa Bolsa Família, de Darci, e com os “bicos” de Jerry como pedreiro, atualmente o casal tem uma vida digna e longe das ruas no bairro São Miguel II (antigo Sem Terra). O casal também faz parte do programa Aluguel Social, no valor de R$ 300 por mês. De acordo com a subsecretária de Assistência Social, Deisimar Bastos, com o registro de nascimento Jerry agora ele vai poder entrar no sistema Cadastro Único (CádUnico), que viabiliza o ingresso em programas sociais. “Antes ele não poderia participar de programas socais porque não existia oficialmente. Infelizmente é triste saber que nos dias de hoje ainda existem pessoas que não possuem qualquer identificação. Esse é o primeiro passo e depois vamos tirar a identidade, CPF e depois a carteira de trabalho”, contou.

Os interessados em retirar o registro civil podem procurar a Secretaria Municipal de Assistência Social, que fica na Rua Eugênio Castanheiras, n° 176 – Centro, de segunda a sexta, das 8h às 17h. Informações pelo telefone: (21) 2665-8322.


Fotos: Joyce Pessanha-PMQ

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